4 de dezembro de 2010

Azul

azul

A nuvem escura empurrava o céu enquanto inchava. Ela parecia querer tomar o lugar dele, ele parecia correr por trás dela, enquanto ela apenas se derramava. Eu nem me importo se vai chover, mas gosto muito da cor que vi. Além disso, o céu não há de ir tão longe. O verbo fugir é inconjugável quando o sujeito é o céu. (Mesmo quando chovemos.) E quando voltar, leve o tempo que for, ainda estaremos juntos. Eu nem me importo, qualquer cor que ele se nos mostre, mais cedo ou mais tarde, devolverá o nosso azul.

17 de outubro de 2010

Destino

eu-e-a-lua

Segue a lua o seu trajeto. Sereno risco pelo seu tão próprio céu. Um brilho imóvel como o sorriso das Nossas Senhoras eternizadas em quadros e esculturas. Olhando ao alto aquela mesma casa que é dela, em todas as noites, mesmo quando lá não está. A noite é da lua. E as Nossas Senhoras não são aquelas da paixão, mas as que afirmam ao céu a sua serenidade em forma de sorriso, tal qual a lua em seu trajeto, o sorriso de amor e bem, um sorriso de lua.

Talvez a lua sorria apenas quando, desavisado, eu olho para ela. E ela então veria o mesmo rosto imóvel: o rosto que se me mostra diferente a cada dia diante do espelho. O rosto que me atrevo a julgar pelas rugas, mas desconfio além delas... algo que talvez a lua saiba e que, por isso, assim me sorri imóvel.

“Que menino tolo!”

“Não rias tu de mim, ó, Lua! Não vês que estou apenas cumprindo nesta Terra o meu papel? Como a todos os outros, cabe a mim apenas o envelhecer.”

“Não estou a zombar de ti, pobre moço, meu sorriso não é mistério. Como podes tu sentir-te velho diante de infindos séculos refletindo o meu brilho sobre a Terra?”

“Não te posso comparar nem idade, nem altura, nem teu brilho. Sou pobre homem já cansado e, se a alguém eu me comparo, é a mim mesmo, a meu moço já partido e pra sempre despedido deste velho que me torno.”

“Pobre homem desalmado! Foste tu agradecido, saberias o que te torna humano. O que guardam tuas rugas, trarás contigo além da morte.”

“Ó, Lua que me guia! Corres pelo céu aberto, vês o mundo pelo alto... Aponte-me que destino seguir.”

“Não me sigas.”

“Seguirei o Sol!”

“Não podes acompanhá-lo. Verás o Sol morrer à tua frente e renascer às tuas costas.”

“A quem devo seguir?”

“Não é o meu chão que teus pés pisam. Não é a minha terra que te empoeiram as sandálias. E vagar ao léu pelo mundo não iguala teu caminho à minha órbita. Não queira me buscar, pois julgarás enganado. Nada queira e te alcançarei. Segue o teu caminho! Adeus...”

15 de setembro de 2010

O muro

180f O muro não é muito baixo. Na realidade, o tijolo mais alto está à altura de minha mão quando meu braço está bem esticado e me encontro na ponta dos pés. Eu mesmo pus aquele tijolo lá. Eu mesmo assentei cada um desses tijolos. O muro é feito de coisas simples, do que está ao meu alcance. Barro mesmo. Algumas pessoas dizem que aqui do lado de dentro é pequeno, mas não é, não. Eles nunca viram mas há muito espaço aqui! Eu só não sei se há portas. Eu sei que às vezes me lembro se há portas, mas na maior parte do tempo esqueço. Eu passo o dia tapando pequenas rachaduras no muro: rachaduras aparecem o tempo todo. E isso me ocupa o tempo todo. Às vezes olho pelas rachaduras e vejo muitas pessoas, mas logo preencho o buraco com barro. Empurro com o dedo e depois passo o lado da mão para fazer um bom acabamento. Só paro de tapar os buracos do muro de noite, quando durmo. Mas freqüentemente o que passa pelos buracos do muro perturbam meu sono. Meu maior medo é a possibilidade de o muro ruir enquanto durmo. Mas o que posso fazer? Eu também preciso descansar.

8 de setembro de 2010

Sentido

180bb Quando eu era cego, suspeitei que, se eu abandonasse o desejo de ver, (eu, que não podia ver), e valorizasse o dom de ouvir, (eu, que podia ouvir), enxergaria mais nitidamente aquilo que eu tanto queria ver com os olhos que eu não tinha.

1 de setembro de 2010

Do Livro dos Prazeres

S6302488 “E por causa da vastidão impessoal, era um Deus para o qual não se podia implorar: podia-se era agregar-se a ele e ser grande também. Em compensação, já que não podia na dor deixar de implorar, aprendera de um dia para outro a implorar misericórdia e força a si mesma, pois ela não era tão vasta nem impessoal nem inalcançável. E obtinha a misericórdia o bastante pelo menos para retomar o fôlego.”

Clarice Lispector

25 de agosto de 2010

Instinto

29.-[Cruzeiro-1] Avança, confiante a cada pedalada. O mato na beira da estrada tem a mesma cor do chão seco por onde passa. O menino não consegue domar totalmente a hesitação e sua testa franzida faz parecer que, se tem alguém com medo ali, é a bicicleta. Segura mais forte o guidão quando lembra que o cascalho solto pode arrancá-lo violentamente de suas mãos. E então um queixo ralado, mais uma vez. Ele não se lembrava de nenhum conhecido que já tivesse aparecido na escola com um queixo ralado. Talvez ninguém além dele era estúpido o suficiente para cair da bicicleta de queixo no chão. Mas agora não. O menino segue concentrado. Pensa que não deve pensar em segurar firme, em equilibrar-se, em desviar das pedras… Isso deveria ser instintivo. Não deveria se preocupar com isso, deveria pensar em… afinal, em que pensa um menino em sua bicicleta? Mas enquanto pensa, segue. O suor acaba deixando breves gotas de lama pela estrada. O menino olha rapidamente para trás e percebe que até consegue produzir uma modesta nuvem de poeira. Sorri. De repente, um fusca branco surge atrás da curva no sentido contrário e enche de terra os olhos do menino. Ele para, esfrega as mãos no rosto e descobre que lama já se formou sobre sua própria pele. Os olhos lacrimejam e após algumas piscadelas já consegue  enxergar novamente o caminho. Limpa o rosto com a barra da camisa. Já está muito longe de casa, talvez umas três ou quatro curvas. Um suspiro pesado. Melhor voltar.

1 de junho de 2010

As horas

horasvaranda Há muitos anos, eu pintei um quadro. Inseguro, deslizava encharcado o pincel sobre a tela, refazendo os traços, substituindo os tons, até que, enfim, desisti. Mesmo insatisfeito, providenciei uma moldura simples, porém bonita, e pendurei-o em um local reservado. Vez ou outra, ao passar por ali, meus olhos encontravam o quadro e, hoje, percebo o quanto aquela paisagem, tema dos aprendizes, tornou-se tão linda e especial, este quadro, outrora recusado por mim mesmo por ser imperfeito,  tornara-se tão bonito, talvez por isso mesmo, ironicamente, imperfeito. A única interferência talvez tenha sido, não no quadro, que permaneceu intocado, mas nos olhos que eu trouxe, que já não são os olhos que eu trago. Lembrei-me de repente de um livro, que releio com freqüência e sempre me emociono na mesma passagem. E sempre me emociono na mesma passagem, porque já não sou o mesmo, pois que, se eu fosse sempre o mesmo, chegaria ali prevenido e não mais me emocionaria.